21/03/2017

A cidade é feita por (e para) pessoas

Os olhos já estão acostumados a ver: são muros, grades e obstáculos nas paisagens das maiores cidades brasileiras. As ruas
são tomadas por automóveis e as vias estão lotadas. Com o inchaço urbano e a dificuldade na aprovação de projetos devido
às burocracias governamentais, a mobilidade urbana* é um dos maiores dilemas do espaço geográfico brasileiro.

*Conjunto de políticas de transporte e circulação que visam proporcionar o acesso amplo e democrático ao espaço urbano.

Como seria possível reverter esse cenário e criar soluções qu e valorizem mais as pessoas?

“Ralph Erskine disse uma vez que, para ser um bom arquiteto, você precisa amar as pessoas. Porque
arquitetura é uma arte aplicada e lida com a moldura da vida das pessoas. Os edifícios emolduram nossas vidas” - Jan Gehl, autor do livro Cidade Para Pessoas e arquiteto e urbanista.

Enquanto podemos citar exemplos como Londres, Copenhague e Barcelona sendo referências mundiais de mobilidade urbana, o Brasil ainda está na linha de fundo em relação à qualificação das áreas públicas. Segundo o arquiteto, urbanista e vice-presidente nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) Tiago Holzmann da Silva, são poucas as cidades brasileiras que planejam o futuro.

“Temos o entendimento que desenvolvimento se dá por empreendimento e carros individuais. É um aspecto de planejamento,
mas também cultural do nosso povo”, comenta Silva, um dos responsáveis por idealizar o documento 10 Pontos Fundamentais para um Projeto de Cidade.

Cidades-exemplo em mobilidade urbana:

- Londres:

Implantação do sistema de aluguel de bicicleta com
acesso 24 horas;

Pagamento de pedágio para tráfego de carros em ruas movimentadas e velocidade média de 19 km/h;

Acessibilidade e sinalização em todos os pontos;

Plano de Ação de Transporte: melhorando a saúde da população londrina, modelo lançado pelo Departamento
de Transporte para Londres (TfL) e que deve ser cumprido até 2021.

- Copenhague:

Plano Copenhague Carbono Neutro 2015, elaborado com o objetivo de se tornar a primeira capital do mundo a
ter um saldo neutro de emissões de carbono até 2025;

346 km de ciclovias;

1º lugar na pesquisa sobre as 20 cidades mais amigáveis do mundo, segundo o Ranking Copenhagenize. 

- Barcelona

Aprovação de projeto de Lei que pretende construir áreas onde ciclistas e pedestres terão prioridade, enquanto
carros ficarão com acesso restrito. O objetivo está em eliminar 60% do tráfego de automóveis em toda a cidade;

Integração dos transportes públicos.

Project For Public Spaces (PPS):

Apesar da conjuntura caótica, grupos de diferentes áreas se reúnem no país para criar documentos, grupos de pesquisas e colocar em prática projetos para tornar as cidades mais humanas. Um dos movimentos é o Project for Public Spaces (PPS). Criado em Nova Iorque, a organização sem fins lucrativos e mundial de planejamento, design e criação ajuda comunidades a construírem espaços públicos mais fortes.

Ao total, já foram realizados mais de 3 mil ações em comunidades de 43 países e em todos os 50 estados americanos. E mais de 600 pessoas no mundo são membros de seu Placemaking Leadership Council (Conselho de Lideranças em Placemaking).

“Essa é a primeira organização autônoma e internacional que faz o urbanismo levar em consideração não os projetos, mas
os comportamentos dos usuários. Saímos da técnica do desenho tradicional através de dinâmicas em grupo e espaços transdisciplinares para discussão. Tudo é feito através da cocriação”, afirma o arquiteto, urbanista e um dos representantes
do PlaceMaking Leonardo Brawl Márquez.

Em Porto Alegre, a entidade se uniu à Associação de Ciclistas para fazer uma provocação à prefeitura da cidade. O desafio
estava em humanizar três ruas do Centro Histórico. Foram organizados encontros para elaborar as diretrizes do plano, e
a ideia foi apresentada aos políticos locais que, não apenas abriram um Grupo de Trabalho, mas também publicaram os
esforços no Diário Oficial.

“Fizemos com que virasse pauta do espaço público. A coordenação era nossa e a execução da Prefeitura. No entanto,
o projeto não foi concluído porque o governo não deu andamento”, conta Márquez.

Outra iniciativa semelhante ocorreu na cidade de São Paulo. O Projeto de Lei 688/13, que prevê Fachadas Ativas, está validado no Plano Diretor paulista e tem como objetivo dinamizar espaços e passeios públicos. “A exigência de ter no térreo de um prédio uma fachada aberta ao público, com espaço comercial, é uma medida bastante inovadora para os conceitos
brasileiros”, fala Silva, vice-presidente do IAB.

Com essas tomadas de decisões, os bairros passam a ter novamente uso misto, deixando de ser somente residenciais ou comerciais. Na visão de Márquez, se não voltarmos ao modelo das décadas passadas, enfrentaremos problemas sociais irreversíveis.

10 pontos fundamentais para um Projeto de Cidade:
por Instituto de Arquitetos do Brasil

1. Planejar para desenvolver a cidade com sustentabilidade
2. Participação é um direito e uma garantia de cidadania
3. Projeto urbano qualifica a cidade para todos
4. Espaço público é o lugar do encontro e da troca
5. Mobilidade é prioridade ao pedestre e transporte público de qualidade
6. A paisagem da cidade é patrimônio de todos
7. Habitação com qualidade e integração das comunidades
8. Morar com dignidade é um direito de todos
9. Concursos públicos de projetos para obras públicas
10. Arquiteto é o profissional que faz edifícios, praças e parques, cuida do patrimônio e planeja a cidade



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